Veneza. Cidade das águas, cidade dos pontes, dos carnavais e... dos santos. O símbolo principal de Veneza é o leão alado. Mas poucos sabem que o leão é o símbolo de São Marcos, e São Marcos... foi roubado. Mais precisamente, suas relíquias foram transportadas ilegalmente de Alexandria (Egito) para Veneza em 828. Esta é uma das operações mais audazes e bem-sucedidas de "remoção de relíquias" da história. Portanto, como dois mercadores venezianos enganaram os muçulmanos, escondendo o evangelista sob carne de porco e tornando Veneza rica e famosa.
Marcos é o autor do segundo Evangelho, companheiro do apóstolo Pedro, fundador da igreja em Alexandria. Segundo se acredita, ele morreu martirizado em 68 d.C. — foi arrastado pelas ruas da cidade até a morte. Ele foi enterrado em Alexandria. No século IV, os cristãos construíram uma igreja sobre sua sepultura.
O símbolo de Marcos é o leão alado. Por quê? Porque o Evangelho de Marcos começa com "uma voz gritando no deserto", e o leão é o símbolo de força e soberania. Em Veneza, o leão alado com um livro se tornou o brasão da cidade.
No século VII, Alexandria caiu sob o domínio dos árabes-muçulmanos. Os cristãos sofriam perseguições. As relíquias de São Marcos estavam em risco de destruição ou profanação. É aí que aparecem os venezianos.
No século IX, Veneza ainda não era uma grande república, mas já ambiciosa. Ela tinha um problema: ao contrário de Roma, Constantinopla e Ravena, Veneza não tinha "seu" santo, cujas relíquias repousavam na cidade. Isso era importante — os santos protegiam a cidade, atraiam peregrinos (ou seja, dinheiro) e davam status.
O doge (gobernador) de Veneza, Giovanni I Partecipazio, sonhava com um santo para a basílica que ele estava construindo (a futura Catedral de São Marcos). Em 827, dois mercadores venezianos — Buono di Tribuno e Rustico di Torcello — partiram para Alexandria com negócios. E, talvez, com uma missão secreta.
Ao chegarem em Alexandria, os mercadores descobriram que as relíquias de São Marcos estavam guardadas em uma igreja, vigiada por muçulmanos e monges gregos (que não queriam entregar a relíquia). Mas um dos monges, Teodoro, por suborno (ou por ideais), concordou em ajudar.
O plano foi genial. Os venezianos subornaram a guarda das portas. À noite, eles roubaram as relíquias da igreja, colocaram-nas em uma cesta e, no topo... cobriram com carnes de porco. Para os muçulmanos, a carne de porco é uma abominação, eles nunca tocariam nela. Durante a inspeção de saída, a guarda rejeitou, sem verificar a cesta. As relíquias foram transportadas de Alexandria para o navio.
Segundo outra versão, as relíquias foram escondidas em um barril de peixe salgado — também podre e desagradável. A lenda diz que no caminho para Veneza, o navio foi atingido por uma tempestade, mas São Marcos apaziguou as ondas, aparecendo ao capitão.
Em 31 de janeiro de 828, o navio chegou a Veneza. As relíquias foram transportadas com honra para uma igreja temporária (que mais tarde se tornou a basílica). O doge levou pessoalmente as relíquias sobre os ombros.
São Marcos se tornou o patrono de Veneza. O leão alado se tornou o símbolo da cidade. A Basílica de São Marcos foi expandida e ornamentada, e as relíquias foram instaladas lá. Veneza não apenas obteve um santo, mas também um forte fluxo turístico (naquela época, peregrino). O papa romano reconheceu a legitimidade do "remoção" — naquela época, a contrabandagem de relíquias era tratada com indulgência.
Em 1094, durante um incêndio na basílica, as relíquias foram "estranhamente" encontradas novamente — escondidas dos inimigos. Desde então, elas descansam sob o altar na basílica. O acesso a elas é aberto aos crentes.
A igreja de Alexandria, perdendo as relíquias, protestou, mas não pôde recuperá-las. Veneza era muito poderosa.
O que hoje chamamos de crime, no século medieval, era uma coisa comum. Relíquias eram transportadas, roubadas, presenteadas, vendidas, trocadas. Cada cidade queria ter seu próprio santo — ele protegia contra a peste, inundações, inimigos. As relíquias atraiam peregrinos, que deixavam dinheiro. As igrejas com relíquias recebiam indulgências e alívios do papa.
Existiam até "transportadores profissionais de relíquias" — monges astuciosos que, por pagamento, encontravam ossadas e elaboravam documentos. O caso mais conhecido após Veneza é o roubo das relíquias de São Nicolau de Mira para Bari (1087). Lá também foi usada a carne de porco, mas em uma versão diferente.
O papa romano não sempre aprovava, mas frequentemente fechar os olhos — se a cidade era aliada.
Buono di Tribuno e Rustico di Torcello se tornaram heróis de Veneza. Eles foram enterrados com honra. Os descendentes dos mercadores receberam privilégios. Não foram erguidos monumentos a eles (Veneza não gosta de monumentos), mas seus nomes estão gravados na basílica.
O monge grego Teodoro, que ajudou a roubar as relíquias, fugiu com os venezianos e recebeu uma generosa recompensa. Mais tarde, ele entrou em um mosteiro perto de Veneza, onde morreu.
A guarda muçulmana que aceitou o suborno provavelmente foi executada quando a fraude foi revelada. Mas a história silencia.
São Marcos é uma parte integral da identidade de Veneza. Seu feriado (25 de abril) é oficial. Os venezianos acreditam que ele ainda protege a cidade das inundações (embora o "acqua alta" ainda submerge). O leão alado com um livro ("Paz a ti, Marcos, meu evangelista") é o logotipo do município, da companhia aérea, do clube de futebol.
A história da contrabandagem de relíquias é um motivo de orgulho. Até turistas são contados com um sorriso. Dizem, nossos antepassados eram astutos e sortudos.
Em 2026, está planejado restaurar o sarcófago de São Marcos na basílica para o 1200º aniversário da contrabandagem (será em 2028). Já agora, é possível ver as frescos que representam o roubo das relíquias — no teto da basílica. Em uma das frescos, os venezianos estão carregando um barril com relíquias para o navio, e na outra, recebendo em Veneza.
A igreja copta de Alexandria não reconhece a legitimidade do transporte das relíquias. Eles acreditam que as relíquias de São Marcos ficaram no Egito (mesmo que tenham sido perdidas), e em Veneza há uma falsificação. Mas isso não impede os peregrinos católicos de adorar as relíquias venezianas.
Em 1968, parte das relíquias (presumivelmente) foi devolvida de Veneza a Cairo — um gesto de boa vontade. Lá, elas são guardadas no catedral copta. Mas os debates continuam.
No entanto, Veneza não se importa. Ela tem uma lenda. E ela vende para milhões de turistas a cada ano.
A contrabanda marítima em Veneza não parou. 1200 anos depois, através do porto de Veneza, transportam cigarros, drogas, antiguidades. Apenas agora, não é mais a carne de porco, mas cocaína escondida em contêineres de tomates. E em vez de relíquias, roubam pinturas de igrejas locais.
A polícia de Veneza luta contra isso. Mas a tradição é tradição. Veneza foi e continua a ser uma cidade de mercadores que sabem como contornar as regras. Em 2025, uma rede de contrabanda de manuscritos antigos da biblioteca Marciana foi revelada — diretamente sob o nariz de São Marcos!
Mas o leão alado está calado. Ele, parece, aprova.
O roubo das relíquias de São Marcos é uma história sobre o quão longe as pessoas podem ir, confiantes na sua justiça. Para os venezianos, foi um ato de salvação da relíquia dos "infieis". Para os cristãos egípcios, um roubo. Mas o fato é que, graças a essa contrabandagem, Veneza se tornou grande, e São Marcos obteve seu famoso templo. E se você vier a Veneza, levante os olhos para o leão alado. Ele piscará para você. Ele sabe o segredo.
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