O juramento olímpico, proferido na cerimônia de abertura dos Jogos, não é uma formalidade protocolar, mas um texto sacerdotal central da "religião olímpica", conceituada por Pierre de Coubertin. Este texto conciso cumpre funções semelhantes aos símbolos religiosos da fé: concentra os principais dogmas do olimpismo, constitui um ato público de compromisso com esses ideais e cria uma moldura ritualística para todo o evento subsequente. Como símbolo de fé, o juramento existe em três dimensões: como texto historicamente formado, como ritual performativo e como objeto de constante reinterpretação e controvérsia.
A ideia do juramento foi adotada diretamente por Coubertin da prática antiga, onde os atletas davam juramento diante da estátua de Zeus em Olimpia, comprometendo-se a seguir as regras e lutar honestamente. Ao ressuscitar os Jogos, Coubertin viu no juramento um instrumento de purificação moral do esporte.
Primeiro juramento (Anversa, 1920): Escrito pessoalmente por Coubertin, foi proferido pelo esgrimista belga Victor Buan. Seu texto era conciso: «Juramos que participaremos desses Jogos Olímpicos no espírito verdadeiramente cavaleiro, em honra do esporte e em nome da honra de nossas equipes.» O foco estava no cavaleirismo (conceito central para Coubertin) e na honra da equipe.
Adição do juramento dos juízes (1972): Após vários escândalos de juízes em Munique, foi introduzido um juramento separado para os juízes e oficiais, destacando a universalidade dos requisitos éticos.
Inclusão do tema do doping (2000): Sob pressão do crescente escândalo de doping, o texto do juramento dos atletas em Sydney foi expandido. A frase «respeitando e cumprindo as regras, no espírito verdadeiramente esportivo, sem doping e drogas» foi adicionada. Esta foi uma reação ao crise de fé na pureza do esporte.
Versão atual (a partir de 2021): Nas Olimpíadas de Tóquio-2020, uma frase sobre unidade, solidariedade e inclusão foi adicionada ao texto — «em nome da unidade do nosso esporte e da nossa família olímpica, em nome do respeito aos princípios fundamentais do olimpismo». Isso foi uma resposta aos desafios contemporâneos de discriminação e isolamento.
Assim, o texto do juramento evoluiu, reagindo aos desafios éticos da era, o que o une a uma tradição religiosa viva, que interpreta o cânone em novas condições.
Um análise do texto do juramento permite destacar seus principais «dogmas»:
Dogma da luta honesta: «cumprindo as regras». Isso é a base da «lei sagrada» das competições olímpicas.
Dogma da pureza e da ascetismo: «sem doping e drogas». É semelhante ao requisito de pureza ritualística.
Dogma do espírito cavaleiro e do respeito: «no espírito verdadeiramente esportivo, em honra do esporte e em nome da honra de nossas equipes». Estabelece um ideal ético que transcende a simples vitória.
Dogma da pertença à comunidade: «em nome da unidade de nossa família esportiva e olímpica». Sublinha a natureza corporativa dos «fiéis».
Dogma da lealdade ao ideal: O ato de proferir o juramento é um ato de lealdade aos princípios mais altos, não aos próprios ambições.
O aspecto performativo do juramento não é menos importante do que seu texto. O ritual é rigorosamente regulamentado:
Eleito: O juramento é proferido por um atleta em nome de todos os participantes (desde 1972 — também por um juiz). Esta é a figura do consagrado, o representante delegado da comunidade.
Lugar e tempo sagrados: A ação ocorre na arena central do estádio durante a cerimônia de abertura — um analogia ao principal culto.
Jeitos simbólicos: O atleta segura o canto do pavilhão olímpico com a mão esquerda — o toque na relicta sagrada. Levantar a mão direita é um gesto antigo de juramento, dirigido aos céus (no caso — aos ideais olímpicos).
Resposta da comunidade: O ritual é encerrado com aplausos do estádio, simbolizando o colletivo «Amen» — aceitação e confirmação do juramento.
Este ritual transforma o atleta de um simples participante em um portador de missão, sobrecarregado com a responsabilidade perante toda a «família olímpica».
Como qualquer símbolo de fé, o juramento olímpico existe em um campo de tensão entre o ideal e a realidade, gerando crises de legitimidade.
Doping: A violação sistemática do juramento «sem doping» por atletas de topo e programas inteiros é o maior desafio. Cada revelação desmantela o status sacerdotal do texto, transformando-o, nos olhos dos céticos, em uma formalidade vazia.
Boicotes políticos e guerras: O juramento «em nome da unidade» soa particularmente amargo no contexto dos boicotes aos Jogos (1980, 1984) ou invasões. A unidade «da família» revela-se uma ficção.
Comercialização: O juramento, que fala sobre «honra», contradiz as realidades onde os atletas são marcas ambulantes e as Olimpíadas um gigante empreendimento comercial.
Em contexto, o ato de proferir o juramento pode ser visto não como uma constatação de fato, mas como um incanto — uma tentativa de manter a realidade longe do caos final de egoísmo e engano.
Primeiro transgressor? Já nas Segundas (para o juramento) Olimpíadas em Paris (1924), o corredor finlandês Paavo Nurmi, que mais tarde se tornou uma lenda, foi acusado de violar o estatuto de amador (receber dinheiro), o que pôs em dúvida a pureza de sua promessa.
Transgressão coletiva: Nas Olimpíadas de Munique (1968), os atletas americanos Tommie Smith e John Carlos, levantando os fists em luvas pretas no pódio, violaram não apenas o neutralismo político, mas também o código de conduta tácito decorrente do juramento, colocando a justiça social acima da «unidade da família».
Símbolo de esperança: Em 2021, em Tóquio, o juramento foi proferido pela primeira vez por dois: um japonês e uma japonesa, e por juízes — dois, um homem e uma mulher. Este foi um gesto em direção à igualdade de gênero, uma tentativa de infundir novo significado ao texto antigo, atual.
O juramento olímpico, como símbolo de fé, existe em um estado duplo. Por um lado, é frequentemente uma formalidade cínica, demonstrando a lacuna entre os altos ideais e a baixa prática do grande esporte. Por outro lado, é um eixo ritualístico inabalável, sem o qual as Olimpíadas perdem sua pretensão a uma dimensão espiritual e se transformam em pura comercialização.
Sua força não está em que todos a observem, mas em que a continuem proferir. O fato de manter esse ritual, sua evolução em resposta aos desafios e a atmosfera solene de sua proclamação são uma prova da profunda necessidade da comunidade esportiva (e dos espectadores) de um ideal transcendentais. O juramento desempenha o papel de uma oração secular — um lembrete de como deve ser o esporte, mesmo que ele não seja assim. Ela é a consciência dos Jogos, seu cânone ético, que ressoa no início do evento para estabelecer a altura, até onde, infelizmente, nem sempre se consegue alcançar. Nessa tensão constante entre palavra e ação, entre juramento e violação, reside a tragédia do olimpismo moderno.
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