Ele não era um artista, nem um crítico no sentido tradicional. Ele era um caçador de talentos. Wilhelm Uhde (Wilhelm Uhde) foi um colecionador e historiador da arte alemão que viveu em Paris no início do século XX. Seu nome não é tão conhecido quanto Picasso ou Matisse, mas foi ele quem abriu o mundo para artistas que o arte oficial desprezava: os naives, os primitivistas, os "pintores de domingo". Uhde arriscava dinheiro, reputação e, durante a guerra, até a vida, para mostrar que o génio pode viver em uma pequena mansarda e pintar em cartão. Graças a ele, conhecemos Serafina de Sainte-Soline, Henri Rousseau, Camille Bombois. Vamos entender quem ele era e como ele realizou suas descobertas.
Wilhelm Uhde nasceu em 1874 na Alemanha em uma família judaica rica. Ele estudou direito, mas abandonou para seguir a arte. Em 1904, mudou-se para Paris, onde abriu uma pequena loja de quadros. Ele foi um dos primeiros a comprar obras de Pablo Picasso, ainda antes de ele se tornar famoso. Uhde comprou o "período azul", os naturais cubistas. Em 1908, ele organizou uma exposição de Picasso em sua galeria. Isso foi um sucesso comercial? Não, foi mais um risco. Mas Uhde acreditava no seu "menino". Mais tarde, Picasso se tornaria uma estrela mundial, enquanto Uhde permaneceria na sombra, mas ele não se arrependeria.
Em 1908, Uhde viu as pinturas de Henri Rousseau, um alfândega, que começou a pintar na aposentadoria. Rousseau era considerado um estranho, suas obras eram ridicularizadas. Uhde viu nele a força: ausência de perspectiva, formas primitivas, mas uma sinceridade incrível. Ele comprou várias pinturas de Rousseau, incluindo "A Cigana Dormindo". Graças ao apoio de Uhde, Rousseau foi notado pelos vanguardistas (Picasso organizou um banquete em sua honra em 1908). Uhde escreveu a primeira monografia sobre Rousseau. Desde então, "O Alfândega" é considerado um clássico.
A principal história de Uhde é o encontro com Serafina Louis. Em 1912, vivendo em Sainte-Soline, ele foi a um jantar em casa dos vizinhos e viu na parede uma pintura: maçãs, uvas, folhas estranhas. O anfitrião disse que foi feita por uma serva que lavava o chão em sua casa. Uhde encontrou Serafina, viu outras de suas obras e ficou impressionado. Ele começou a comprar suas pinturas, a dar dinheiro para tintas. Serafina dizia: "Ele sabia que os anjos falavam comigo". Uhde organizava exposições, mas o sucesso veio tarde, quando Serafina já estava louca. No entanto, ele não a abandonou e no hospital, pagou pelo tratamento. Após a morte da artista, ele conquistou o reconhecimento de seu talento. Hoje, suas obras estão no Louvre.
Uhde não parou. Ele procurou por toda a França por artistas "naives" que nunca estudaram em academias. Descobriu Camille Bombois (Camille Bombois) — um ex-lutador de circo que pintava mulheres poderosas e cavalos. Louis Vivin (Louis Vivin) — um carteiro, autor de paisagens urbanas. André Bauchant (André Bauchant) — um jardineiro que criava cenas bíblicas em estilo primitivista. Uhde chamou este grupo de "Cantores do Coração Sagrado" (pintores do coração sagrado). Em 1928, ele organizou uma exposição "Primitivismo Contemporâneo" em Paris. A plateia ria, os críticos xingavam, mas Uhde sabia: esses artistas são o futuro.
Em 1939, começou a Segunda Guerra Mundial. Uhde era judeu e enfrentava a deportação. Ele fugiu de Paris. Parte de sua coleção foi confiscada pelos nazistas, mas muitas pinturas ele conseguiu levar ou esconder com amigos. Em exílio, ele continuou a escrever artigos sobre o arte naïf. Após a guerra, ele voltou a Paris, mas sua galeria estava arruinada. Ele morreu em 1947, quase esquecido. Mas suas descobertas sobreviveram a ele.
Uhde foi um dos primeiros a teoricamente justificar o valor do arte naïf. Ele discutiu com os modernistas, que exigiam uma educação acadêmica. Ele provou que a sinceridade e a visão podem ser mais importantes do que a técnica. Hoje, o arte naïf é reconhecido por museus de todo o mundo. Graças a Uhde, sabemos que os mestres não sempre nascem nas academias.
Em 2008, foi lançado o filme "Serafina" (dirigido por Martin Provost), onde Uhde foi interpretado pelo ator alemão Ulrich Tukur. O filme ganhou o "César", mostrando como Uhde literalmente salvou Serafina do esquecimento.
A principal descoberta de Uhde não são os artistas específicos, mas o próprio princípio: o arte pode ser criado por qualquer pessoa movida por uma paixão interna. Ele abriu a porta para um mundo onde não há limites entre profissional e amador. Isso é seu legado.
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