Na obra de Charles Dickens, não existe um único e estático retrato do "herói ideal" no sentido cavaleiresco ou romântico. Seu heroísmo não está em feitos sobrenaturais ou no triunfo social, mas na firmeza moral, na capacidade de compaixão e na manutenção da humanidade em um mundo cruel e injusto. A evolução desse ideal dos romances iniciais aos finais reflete o pessimismo social cada vez mais complexo de Dickens e o deslocamento do foco do sofrimento passivo para uma resistência ativa, embora local, ao mal. O herói ideal de Dickens é uma resposta aos desafios de sua era: utópico para seus contemporâneos e profundamente humanista para seus descendentes.
Nos romances iniciais ("O Ladrão de Oliver Twist", "Nicholas Nickleby"), o herói ideal é frequentemente apresentado em duas faces:
Menino-vítima, mantendo a inocência. Oliver Twist é um exemplo arquetípico. Sua "idealidade" está na manutenção passiva, quase mágica, da bondade inata e das maneiras nobres, apesar dos horrores da fábrica de tecidos, da quadrilha de bandidos e da injustiça social. Seu heroísmo está na resistência à decomposição, não na mudança ativa do mundo. Ele é objeto de salvação, não sujeito de ação.
Idéia feminina: "anjo na casa" (The Angel in the House). Rose Maylie ("O Ladrão de Oliver Twist"), Kate Nickleby, Agnes Wickfield ("David Copperfield") encarnam o culto vitoriano da pureza feminina, do altruísmo e da virtude doméstica. Sua força está no influência moral, na paciência e na capacidade de ser "um porto seguro" para o homem. Seu papel é salvar e inspirar, não agir sozinho.
Nos romances maduros, o ideal se complexifica, adquirindo traços de um bem que é ativo, embora não omnipotente.
Homem feito por si mesmo com um coração bom: David Copperfield. Sua idealidade está na capacidade de extrair lições morais das dores, manter a fidelidade aos amigos (como a Staveley, mesmo após sua queda) e encontrar felicidade no trabalho honesto e na vida familiar. Sua história é um Bildungsroman, onde o heroísmo está no crescimento pessoal e na manutenção da integridade.
Idéia como família alternativa e comunidade. Em "A Casa Fria", não há um herói central. O começo ideal está distribuído entre aqueles que se opõem ao indiferença gelada do sistema: Esther Summerson — com sua compaixão ativa e prática (ao contrário dos anjos passivos do período inicial); John Jarndyce — como a bondade razoável e privada, evitando a publicidade; o inspetor Backet — como a honestidade profissional em serviço da verdade.
Nos romances mais sombrios, o lugar do herói ideal muitas vezes é ocupado por uma vítima cujo dignidade está na resistência estóica e na manutenção da alma.
Arthur Clennam ("A Menina Dora") é um dos heróis ideais mais "não heroicos". Ele é passivo, infeliz, consumido pelo sentimento de culpa. Seu heroísmo está no recusa ao cinismo, na honestidade consigo mesmo e com os outros, na capacidade de ver na "menina Dora" uma pessoa e não um objeto de misericórdia. Ele é um compás moral em um mundo capturado pelo dinheiro e pela prisão (real e mental).
Sidney Carton ("A Conta dos Dois Cidades") — aqui o ideal dickensiano alcança seu ápice trágico. Carton, cínico e desgastado por fracassos, comete o único ato heroico em sua vida — o auto-sacrifício por um amor redentor. Sua idealidade está na vitória sobre si mesmo, na transformação de parasita em salvador, que dá sentido à sua "vida inútil". "Isso é muito melhor do que tudo o que já fiz" é a frase-chave.
Emily (a Menina Dora) Dorrit — uma figura feminina única. Ela combina a desprendimento do "anjo na casa" com uma força silenciosa, mas inabalável. Seu heroísmo está no trabalho diário, não ostensivo, no apoio ao pai tirano e na manutenção do amor e da humildade, mesmo quando rica. Ela é o eixo moral que mantém o mundo do romance.
Para Dickens, o herói ideal sempre é definido por categorias morais, não sociais:
Capacidade de compaixão (sympathy). A principal virtude. O herói sabe sentir a dor dos outros.
Trabalho e honestidade. Contrapostos ao parasitismo da aristocracia e ao fraude dos comerciantes (como o senhor Merdle em "A Menina Dora").
Fidelidade e lealdade à família (escolhida ou biológica).
Humildade e ausência de vaidade. A vaidade é o principal pecado dos vilões dickensianos (Gradgrind, Domby, Heavisham).
Capacidade de perdoar. Ao contrário dos antagonistas vingativos.
Os heróis ideais de Dickens muitas vezes são socialmente vulneráveis (órfãos, pobres, mulheres, fracassados). Dessa forma, o escritor afirma que o superiority moral não depende da classe. Seu ideal é uma resposta utópica à brutalidade da industrialização, da burocracia e do darwinismo social. Ele oferece não uma revolução, mas "uma revolução de um coração" — a crença de que a mudança do mundo começa com a bondade, a honestidade e a compaixão individuais. Isso é seu conservadorismo e seu radicalismo.
O herói ideal de Charles Dickens evoluiu de um menino-santo sofredor a um adulto complexo, frequentemente quebrado, mas não quebrado. É um herói de tamanho humano comum, cuha batalha ocorre não no campo de batalha, mas na vida cotidiana, no conflito com a máquina social e com suas próprias fraquezas. Sua arma não é a espada, mas a bondade; sua vitória não é um triunfo, mas a manutenção da alma e a possibilidade de um pequeno, local prazer. Isso é o profundamente humanista de Dickens, que faz de seus heróis não esquemas moralistas arcaicos, mas orientações vivas em qualquer era que se depara com problemas de injustiça social e desumanização. Sua força está na lembrança de que a grandeza pode residir não em mudar todo o mundo, mas em não permitir que o mundo mude em si mesmo.
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