Em 4 de julho de 2026, os Estados Unidos celebram seu 250º aniversário — o século sete-quinquênio, o aniversário da assinatura da Declaração de Independência. Em Filadélfia, onde há 250 anos o Segundo Congresso Continental adotou o documento que proclamou a ruptura com a coroa britânica, hoje ecoam discursos patrióticos. No National Mall em Washington, um espetáculo grandioso chamado "Salute to America" é realizado com recorde de 850 mil fogos de artifício. Pela primeira vez na história, a famosa bola no Time Square cai em honra ao Dia da Independência. Mas por trás dessa grandiosidade esconde-se uma realidade preocupante: a sociedade americana se aproximou de seu aniversário profundamente dividida, e a principal questão que ressoa no dia dos 250 anos é: essa nação conseguirá persistir ainda por tanto tempo?
Em 4 de julho de 1776, representantes das treze colônias britânicas em Filadélfia aprovaram um documento, cujo autor foi Thomas Jefferson. Nele, proclamavam-se ideias que hoje parecem óbvias, mas naquela época foram um desafio audacioso: todos os seres humanos são criados iguais e dotados de direitos inalienáveis à vida, liberdade e busca da felicidade. A Declaração consolidou o direito do povo de mudar ou abolicionar o poder se ele violar esses direitos. Como observa o presidente alemão Frank-Walter Steinmeier em uma mensagem de felicitações, os revolucionários assinaram um documento que devia mudar a história.
Esses princípios se tornaram o fundamento da identidade americana. Durante 250 anos, o país tentou construir "uma União mais perfeita", como dito na preâmbulo da Constituição. Mas esse caminho nunca foi reto: a Declaração proclamou a igualdade universal, mas a república que se seguiu lutou contra a escravidão, a segregação e a desigualdade por séculos. A própria Constituição, como observam os historiadores, se tornou uma história de redenção incompleta — cada emenda foi um reconhecimento de que o documento original permanecia incompleto.
A América se preparou cuidadosamente para o 250º aniversário. Em 2016, o Congresso criou a Comissão do Século Sete-Quinquênio para coordenação das comemorações nacionais. Em janeiro de 2025, o presidente Donald Trump assinou um decreto criando o grupo de trabalho "Celebrando o 250º Aniversário da América" no Palácio do Branco. Segundo os organizadores, isso deve se tornar o maior e mais inclusivo evento jubileu na história do país.
No entanto, a preparação para as comemorações se transformou em mais uma batalha política. Os democratas acusaram o presidente de usar o jubileu para um espetáculo partidário antes das eleições intermédias no Congresso em novembro e tentar "reescrever" a história dos EUA em uma versão brilhante. Os republicanos, por sua vez, insistiram que tal escala merecia uma grande data. O resultado é pelo menos sete estados que se recusaram a participar da "Grande Feira Americana dos Estados", o evento central das comemorações, o que tornou visível a fragmentação e a politização do jubileu.
O sintoma mais preocupante é o humor público. De acordo com uma pesquisa Reuters e Ipsos realizada em junho de 2026, cerca de 38% dos americanos acreditam que em 250 anos os EUA não existirão mais como nação unida. Entre os democratas, 40% acreditam nisso, entre os republicanos, 26%. Isso não é apenas estatística — é um sinal de profundo crise de confiança nas instituições e no futuro do país.
Como escreve o jornal chinês China Daily, "os jubileus são espelhos. O reflexo que os EUA veem hoje é mais amargo do que os fogos de artifício que iluminam o céu no Dia da Independência". A polarização transformou as diferenças políticas em um conflito existencial, as nomeações de juízes são frequentemente vistas por lentes partidárias, e a legitimidade das eleições é questionada com regularidade alarmante. As normas constitucionais, que uma vez se baseavam em limites não escritos, dependem cada vez mais de formalidades jurídicas.
Pesquisadores da Universidade de Cornell chamam esse momento de "muito difícil" para a democracia americana devido à combinação única de pressões sociais, políticas e econômicas. O Human Rights Watch, em seu relatório de 2026, observa que a administração Trump "subministradamente abalou ou colocou em risco o estado de direito, a liberdade de expressão, o direito de voto e os principais mecanismos de supervisão, responsabilidade e transparência".
No centro dos debates jubileus está a luta pela interpretação da história. A administração Trump não apenas celebra o 250º aniversário, mas tenta consolidar uma linha narrativa oficial que enfatiza a grandiosidade dos pais fundadores, as tradições constitucionais e a glória nacional. Como observa o jornal chinês The Paper, "quem define 1776, provavelmente definirá também 2026". No entanto, esse narrativo oficial enfrenta um crescente ceticismo: muitos americanos estão cada vez mais se perguntando se o sistema existente é capaz de responder a problemas reais — desigualdade social, desigualdade econômica e crise institucional.
O paradoxo do jubileu de 250 anos, segundo os especialistas, é que "as elites políticas tentam chamar à base, enquanto os cidadãos comuns estão cada vez mais duvidando de que esse sistema pode responder a problemas reais da vida — fragmentação, caos e desordem". O país celebra seu aniversário, mas está imerso em uma profunda busca de identidade. Como escreve The Paper, "não é apenas uma celebração, é um julgamento sobre o que é a América" [referência: 28].
O contexto externo apenas intensifica a instabilidade interna. A especialista russa Alexandra Vojtolovskaya observa que os americanos estão insatisfeitos tanto com a política interna do presidente Trump, que expandiu o poder executivo em detrimento das ramas legislativa e judiciária, quanto com sua política externa. Durante dois anos, a administração republicana desencadeou uma guerra contra o Irã, conduziu uma operação militar na Venezuela, realizou operações no Estreito de Ormuz, bem como ataques aéreos em Iémen, Somália, Nigéria, Síria e Iraque.
Nesse contexto, as comemorações jubileus, segundo Vojtolovskaya, parecem um "banquete no tempo da peste". A grandiosa feira, o maior fogo de artifício, a regata a vela, o espetáculo aéreo e os vários concertos suscitam a questão legítima dos eleitores: até que ponto é apropriado financiar esses eventos com o orçamento?
O prestígio internacional dos EUA também enfrenta um teste. Como observa o China Daily, desde 1945, Washington forneceu em grande parte a arquitetura de segurança global, mas os privilégios impõem obrigações. O domínio financeiro do dólar, o controle sobre os sistemas de pagamento e a política de sanções transformaram o poder monetário em um instrumento geopolítico, o que inevitavelmente impõe custos assimétricos aos outros países.
O jubileu de 250 anos se tornou um momento de verdade. Os fundadores dos EUA, como lembra o China Daily, "intencionalmente criaram um sistema capaz de se corrigir, porque entenderam a imperfeição humana". Cada período de renovação exigiu uma análise difícil, não uma mitologia confortável.
No dia do jubileu, o congressista Salad Carbahal chamou os americanos a "renovar-se aos valores que guiaram nossa nação para uma União mais perfeita durante 250 anos" [referência: 36]. A questão é se essa chamada será ouvida por aqueles que já não acreditam na possibilidade de tal União. Porque, como observou um dos correspondentes, "a democracia enfraquece quando os cidadãos perdem a confiança de que realmente estão formando seu próprio futuro. A democracia requer mais do que simples eleições formais".
250 anos da Declaração de Independência não é apenas um motivo de orgulho, mas também um aviso. A nação fundada na ideia de que todos os seres humanos são iguais está hoje mais longe do ideal do que nunca. E enquanto os fogos de artifício iluminam o céu sobre Washington, milhões de americanos se perguntam: será que seu país, que sobreviveu à Guerra Civil, à Grande Depressão e muitos outros crises, será capaz de sobreviver ao crise de confiança em si mesmo? A resposta a essa pergunta determinará não apenas o destino dos EUA, mas também o futuro do mundo, que viveu por décadas pelos padrões americanos.
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