Um paradoxo que acompanha a profissão de cozinheiro ao longo de séculos soa mais ou menos assim: a mulher é a principal na cozinha doméstica, mas o homem é o rei na cozinha profissional. Hoje, quando os papéis de gênero estão sendo rapidamente revisados em todas as esferas da vida, o mundo culinário não fica de lado. No entanto, a transformação aqui é mais lenta do que se gostaria e se depara com estereótipos profundos que têm suas raízes na antiguidade. O que está acontecendo na profissão de cozinheiro hoje? Por que, com a abundância de cozinheiras na posição de chef, apenas algumas conseguem se destacar? E para onde vai esse setor — para a igualdade ou para novas formas de desigualdade?
Curiosamente, mas é fato: na vida cotidiana, a responsabilidade de cozinhar para a família tradicionalmente recai sobre a mulher, a "protetora da chama". Ao mesmo tempo, os cozinheiros em restaurantes são predominantemente homens. Este rompimento não é acidental. Ainda na Grécia Antiga e Roma, a mulher estava ligada ao lar e não podia ocupar profissões "serias". As escravas femininas eram permitidas assar pão e executar trabalhos simples na cozinha, mas eram os homens que planejavam festas luxuosas, preparavam pratos exóticos e recebiam ovações dos convidados. Essa modelo se consolidou por séculos.
Na posição de chef em restaurantes de elite, sempre foi o homem. Mesmo a palavra francesa "le chef" existe apenas no gênero masculino. O historiador inglês Charles Paget Smith tocou em um ponto fino: "as mulheres cozinham para as pessoas que amam. Os homens cozinham pelo arte". Por trás dessa frase está uma filosofia que determinou por décadas quem tem direito a criar na culinária e quem permanece na sombra.
A estatística de 2025 revela uma imagem que não surpreende ninguém, mas ainda assim faz pensar. No mundo, 81,5% dos chefs são homens e apenas 18,5% são mulheres. As cozinhas dos principais restaurantes do mundo são praticamente sempre lideradas por homens. Na Irlanda, hoje há aproximadamente o dobro de cozinheiros homens do que mulheres. E quanto mais alto na hierarquia, maior a diferença: homens compõem aproximadamente 79% de todos os chefs e mais de 90% de todos os chefs executivos.
Na França, onde a gastronomia é elevada a ideia nacional, as mulheres compõem 35% da equipe de cozinhas profissionais, mas apenas 19% delas são chefs. Na Alemanha, onde em 2024 houve até um pequeno excesso de mulheres entre os cozinheiros treinados (297 mil mulheres contra 256 mil homens), sua participação nas posições de liderança diminui sistematicamente à medida que se move para cima na carreira: apenas 33% das posições de liderança na gastronomia são ocupadas por mulheres. E em 2025, na Alemanha, as estrelas Michelin foram concedidas a 14 mulheres e 337 homens.
Nos Estados Unidos, a média de salário anual para cozinheiros e chefs em 2025 foi de 45 mil dólares para homens contra 35 mil para mulheres. Na Europa, a diferença de gênero na remuneração no setor de hospitalidade varia de 5,1% a 23,8%. Os números são implacáveis: a cozinha profissional continua sendo um território de domínio masculino.
Uma das principais razões é a própria arquitetura da cozinha profissional. O chef célebre do século XIX, Georges Auguste Escoffier, que revolucionou a culinária, criou um sistema baseado em disciplina militar rigorosa. A cozinha foi construída com um princípio hierárquico com um "chef" (a palavra francesa significa "chef" ou "líder") no topo. Essa modelo, que perdurou até nossos dias, cria um ambiente que Anthony Bourdain descreveu em sua famosa "Confissão do Chef" como um espaço de agressão masculina e criatividade, alimentado por testosterona. Não é de se surpreender que jovens homens se atraiam para essa imagem de caçador-cozinheiro, enquanto às mulheres é difícil não apenas se destacar, mas simplesmente respirar em tal atmosfera.
Para isso, adiciona-se o estereótipo cultural: acreditava-se que a mulher não era suficientemente rígida para liderar uma equipe, era muito fraca para essa função. Muitas chefes femininas reconhecem que têm que trabalhar duas vezes mais para ganhar reconhecimento e provar sua competência onde aos homens é perdoado. A pesquisa do MIT de 2022 mostrou que, apesar de melhores resultados e menor probabilidade de demissão, as mulheres recebem promoções menos frequentemente do que os homens.
O termo "teto de vidro" é plenamente aplicável à profissão culinária. As cozinheiras enfrentam barreiras invisíveis que impedem seu progresso para as mais altas posições de liderança. Isso é especialmente evidente no sistema de prêmios e reconhecimentos. Para cada restaurante Michelin liderado por uma mulher, há 16 restaurantes liderados por homens. Entre os 100 melhores restaurantes do mundo, a participação de chefes femininas é de apenas 6,5%. Em 2025, de 22 novos restaurantes que receberam uma estrela Michelin no Reino Unido, apenas um foi honrado com uma chef feminina.
Curiosamente, as mulheres na culinária profissional frequentemente acabam em nichos específicos. Elas predominam na confeitaria, nos departamentos frios, em posições consideradas "menos prestigiadas". Isso lembra uma segregação horizontal, quando as mulheres se concentram em áreas específicas, frequentemente menos pagas e menos status. As pesquisas confirmam: as mulheres na profissão culinária enfrentam tanto segregação horizontal quanto vertical, recebem salários mais baixos, menos prestígio e reconhecimento.
No entanto, a imagem não seria completa sem contar aqueles que estão mudando as regras do jogo. Por todo o mundo, surgem chefes femininas que não apenas quebram o teto de vidro, mas também reestruturam a cultura da cozinha.
Tasia Magalhães do Brasil, reconhecida como a melhor chef da América Latina em 2025, foi ainda mais longe: quando ela abriu seu restaurante Nelita em São Paulo, ela decidiu que a cozinha seria liderada exclusivamente por mulheres. Ela incentiva-as a expressar sua individualidade, usar acessórios coloridos e não ser "ruins, malvadas ou especialmente fortes". "Eu perdi minha feminilidade no início da carreira", admite ela, "e não quero que outras mulheres passem por isso". Seu abordagem não é apenas igualdade, é a redefinição da própria filosofia da cozinha.
Na França, onde as mulheres compõem apenas 19% dos chefs, surgem inovadores como Letícia Wis (proprietária de La Femme du Boucher em Marselha), que abertamente se opõe às condições de trabalho violentas, Georgette Viu — a primeira mulher de cor e descendente de família imigrante a receber uma estrela Michelin na França, e Manon Fleury — defensora da cozinha orgânica e da expansão dos direitos das mulheres. Essas mulheres quebram estereótipos não apenas por seu mestre, mas também por sua presença.
O mercado de trabalho na área de hospitalidade na Rússia está vivendo um crescimento explosivo. De acordo com os dados de 2025, a demanda por chefs cresceu 115% e o salário médio atingiu 101 488 rublos. Isso abre novas oportunidades para todos, independentemente do gênero. No entanto, a estatística de gênero na Rússia continua difícil de coletar: aqui, como em muitos outros países, não há divisão oficial de gênero por cargos na culinária.
Organizações internacionais, como Worldchefs, estão ativamente pesquisando o problema de desigualdade de gênero. Em 2025, foi publicado o relatório "State of Gender Equality in the Travel and Hospitality Industry", que mostrou que 63% das mulheres entrevistadas acreditam que têm que trabalhar mais duro devido ao gênero para ganhar reconhecimento. Isso é um sinal alarmante, mas também um estímulo para mudanças.
Na Alemanha, a jornalista Denise Wachtner lançou a plataforma "Chef:in" — a primeira plataforma para chefes femininas, destinada a aumentar sua visibilidade, criar uma rede e inspirar a próxima geração. "Vivemos em um sistema patriarcal", diz Wachtner. "Os homens promovem os homens e as mulheres têm que provar-se duas vezes".
As transformações de gênero na profissão de cozinheiro hoje são um processo lento, mas irreversível. Por um lado, os números ainda mostram um desequilíbrio profundo. Por outro lado, cada vez mais mulheres entram na profissão, cada vez mais delas permanecem e se destacam, e cada vez mais homens começam a perceber que a diversidade faz a cozinha mais forte.
É importante entender: o problema não é que homens e mulheres cozinham de maneira diferente. O problema é que o sistema criado por homens para homens ainda não se adaptou às novas realidades. A mudança dessa sistema requer não apenas cotas ou prêmios separados para mulheres, mas uma revisão da própria cultura da cozinha profissional — sua hierarquia, sua rigidez, suas regras implícitas.
A profissão de cozinheiro está vivendo hoje uma profunda transformação. O paradoxo no qual a mulher é a principal na cozinha doméstica, mas raramente se torna chef em restaurantes, está gradualmente perdendo força. A nova geração de mulheres-cozinheiras não apenas entra na profissão, mas a redefine. Elas criam seus restaurantes, suas equipes, sua estética e sua filosofia. Elas mostram que a cozinha pode ser não um campo de batalha, mas um espaço de criatividade e colaboração. E embora o caminho para a igualdade ainda seja longo, cada novo nome na lista de chefs, cada nova estrela Michelin conquistada por uma mulher, cada restaurante onde a equipe feminina trabalha igualmente com a masculina, é um passo na direção certa. Porque a verdadeira culinária, como qualquer arte, não conhece gênero.
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