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Por que o Wimbledon não deixa cães entrar: tradições, grama e quarentena

Imagine: você é a número um do mundo, vence um jogo no Wimbledon, sai para o court para cumprimentar a torcida, e seu cão está esperando você no hotel. Não nas arquibancadas, nem por trás das cenas, nem em um local especial para pets. Simplesmente esperando. Para Aрина Соболенко, que viaja com seu cavaleiro-king charles spainhal chamado Эш pelo mundo, essa realidade é a principal dor do Wimbledon. “Me dói deixar ele sozinho em casa, porque ele realmente se liga muito e sofre, ficando sozinho”, admite a tenista. Mas os organizadores do mais antigo torneio de tênis do mundo permanecem inflexíveis. Cães não são permitidos no Wimbledon. E essa proibição tem pelo menos três razões inabaláveis que remontam aos primórdios.

Uma tradição de quase 150 anos

Wimbledon não é apenas um torneio. É um templo do tênis, onde cada tradição é sagrada. E a proibição de animais de estimação é uma das mais antigas. Por quase um século e meio, o All England Lawn Tennis and Croquet Club mantém uma regra rigorosa: nenhum cão na propriedade. Essa regra se aplica a todos: jogadores, torcedores, convidados e até mesmo jornalistas. O torneio que até 2023 proibia os jogadores de usar calções coloridos ou pretos, manteve-se inabalável em termos de regulamento. E a proibição de cães é apenas uma das varetas dessa corrente conservadora.

No entanto, nos últimos anos, essa proibição foi colocada sob o microscópio. Tudo começou com o “Roland Garros” — o Aberto da França, onde os organizadores não apenas permitiram que os jogadores trouxessem seus cães, mas também criaram um verdadeiro serviço para eles: cuidadores especiais, babás e até mesmo acreditações oficiais para os pets. Mirra Andreeva, vencedora do Roland Garros-2026, celebrou sua vitória no court com seu cão — e essas imagens circularam pelo mundo. Depois disso, muitos esperavam que o Wimbledon também se flexibilizasse. Não esperaram nada.

Três principais razões para a proibição

Por que os organizadores do Wimbledon insistem nessa regra, apesar das solicitações dos tenistas e da crítica das lendas, incluindo a 18 vezes campeã Martina Navratilova, que chamou as explicações do Wimbledon de “desculpa”? A resposta está em três fatores.

1. A grama é sagrada

A primeira e principal razão é a grama. Wimbledon é o único torneio do Grand Slam que é realizado em superfície de grama. E essa grama não é apenas um gramado. É um revestimento cuidadosamente mantido, medido até os milímetros, que requer manutenção todo o ano. As patas dos cães podem danificar não apenas os courts, mas também os campos ao redor, incluindo o famoso Hill Henman, onde os torcedores ficam na grama durante os jogos. Os organizadores temem que até um único cão possa deixar marcas visíveis na superfície verde perfeita. “Não são apenas os courts, mas também os campos. Isso não combina bem com cães, grama e espaços públicos”, explicou o jornalista John Vertrees.

2. Leis de quarentena britânicas

A segunda razão é as rigorosas leis de quarentena do Reino Unido. O Reino Unido sempre se destacou por seu approach rigoroso ao entrada de animais. Mesmo se um cão vier de um país com uma situação epidemiológica favorável, a procedura de entrada requer muitos documentos, vacinas e, às vezes, até quarentena[referência:10]. Os organizadores do Wimbledon não querem se responsabilizar por cumprir essas regras para dezenas de pets que poderiam viajar com os jogadores. É mais fácil proibir todos e não se preocupar.

3. Herança histórica

A terceira razão é o espírito do Wimbledon. O torneio, que começou em 1877, sempre foi conservador e cerimonial. O código de roupa branco, a ложa real, o silêncio durante as partidas — tudo isso faz parte da atmosfera única. E a proibição de cães é uma parte inseparável dessa atmosfera, como a morango com creme. A diretora do clube, Sally Bolton, confirmou: as regras permanecerão inalteradas. “Essa política já está em vigor há muitos anos e não deve causar insatisfação entre os jogadores”, disse ela.

Exceções que confirmam as regras

A proibição no Wimbledon não é absoluta. Cães de serviço são permitidos na propriedade: cães-guia, cães-ajudantes para pessoas com mobilidade limitada, para pessoas com deficiência auditiva, cães que reagem a convulsões e cães para pessoas com autismo. Para eles, há uma área especial no topo da terraza Aorangi. E há uma área especial para o passeio de cães de serviço por trás do Hill Henman com piscina e banheiro. Mas para pets domésticos, há um proibição rigorosa.

Esse contraste é especialmente notável em comparação com o Roland Garros, onde os organizadores atenderam aos jogadores e criaram um verdadeiro paraíso para cães. Lá, os pets recebem acreditações, são cuidados por babás profissionais e os jogadores podem ver seus amigos de quatro patas imediatamente após os jogos. No Wimbledon, até a lendária Martina Navratilova não foi permitida a entrar no restaurante com seu cão em 2025.

A questão do cão como espelho da era

A discussão sobre cães no Wimbledon não é apenas uma discussão sobre animais de estimação. É um confronto entre dois mundos: o Wimbledon tradicional e conservador e o tênis moderno e flexível, onde os jogadores viajam com suas famílias e pets, e os torneios competem pelo título de mais amigável. Aрина Соболенко, que chama as caminhadas com Эш de “uma espécie de meditação”, representa a nova geração de tenistas, para quem a vida em turnê não é apenas o court, mas também espaço pessoal, conforto e apoio emocional.

“É apenas um pequeno ser peludo que sempre quer abraços e amor”, diz ela. E nessa frase — toda uma filosofia: os atletas também são humanos e precisam de apoio, mesmo que esse apoio seja em forma de quatro patas e nariz molhado. Enquanto isso, o Wimbledon ainda não está pronto para essas mudanças. Mas talvez em alguns anos, essa tradição caia — como caiu o proibição de calções coloridos, como surgiu a cobertura sobre o Central Court. No final, até as tradições mais sagradas mudam em algum momento. Mas por enquanto — nenhuma cão.


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