O Natal etíope, ou Genna (ገና), é um dos mais autênticos e antigos tipos de celebração deste evento no mundo cristão. Sua única natureza é devido ao preservação das antigas (pré-cristãs e primeiramente cristãs) tradições, às características do cristianismo ortodoxo etíope (Tewahdo) e ao uso do calendário juliano. A celebração de Genna não é apenas um ritual religioso, mas um fenômeno sociocultural complexo, refletindo profundas camadas da identidade etíope.
O Natal na Etiópia é celebrado em 7 de janeiro (pelo calendário gregoriano), que coincide com o 29º dia do mês de Takhassas pelo calendário etíope. Este calendário, derivado do antigo calendário alexandrino, está atrasado em 7 anos e 8 meses (com estrutura de 12-13 meses) em relação ao gregoriano. A data do 29 de Takhassas foi escolhida não por acaso: de acordo com a tradição teológica etíope, é baseada em cálculos complexos relacionados com a Anunciação, que é celebrada no 29º dia do mês de Miyazia (≈ 7 de abril). O Natal 9 meses após a Anunciação é rigorosamente seguido por essa lógica cronológica, enfatizando a sistematicidade do ano litúrgico.
Preparação litúrgica: jejum de 40 dias e maratona litúrgica
A preparação para Genna é um jejum rigoroso de 40 dias, conhecido como "Jejum do Natal" (Ye-Abiy Tsom). Ele começa em 25 de novembro pelo calendário etíope (≈ 3 de dezembro) e implica o completo abandono de produtos de origem animal (carne, leite, ovos), e para os mais devotos, até mesmo de peixe. O jejum tem não apenas significado ascético, mas também salvacionista, preparando os fiéis para o encontro espiritual com o Deus encarnado.
A culminação é a noite de 7 de janeiro. Em todas as igrejas do país, é realizado um serviço noturno grandioso que dura até o amanhecer. Os fiéis, vestidos em roupas tradicionais brancas (netela), ficam em pé durante toda a missa (sentar na igreja etíope não é aceito). O ápice da liturgia é a procissão solene com o tabot — arca que simboliza os Pátrios da Aliança. Os padres e diáconos em vestimentas bordadas, sob os sons ritmicos dos tambores (kebero) e dos sistemas de sinos (sistr), percorrem a igreja três vezes, simbolizando a alegria geral.
O festival tem componentes populares e simbólicos fortemente entrelaçados com a tradição eclesiástica.
Fogueira de Davi (Ye-David Bola). Antes do Natal, especialmente em Adis Abeba e outras cidades, a juventude se reúne em enormes pilhas de madeira para fogueiras, que são acendidas nos pátios das igrejas e em espaços abertos após a missa noturna. Os participantes, vestidos de branco, saltam sobre o fogo, dançam em círculos ao redor dele, cantam músicas festivas. Este costume, que provavelmente tem raízes pré-cristãs (ligadas ao solstício de inverno), foi cristianizado e interpretado como um símbolo simbólico da queima de pecados e alegria pelo nascimento do "Sol da Verdade".
Jogo de genna. Genna também é chamado de jogo tradicional etíope de equipe com taco e bola de madeira, semelhante ao hóquei em relva ou polo. No dia de Natal, após a missa e a ceia, homens e jovens se reúnem em campos para jogos em grande escala. Esta brincadeira é interpretada como uma lembrança dos pastores, que, ao saberem do Natal, alegremente balançavam suas varas. Ele serve como um poderoso ato social, fortalecendo os laços comunitários.
Cena e delícias. Após o jejum, o prato principal é injera (indjera) com várias variações (wat), incluindo as de carne (normalmente de aves ou carne de ovelha). É servido o tradicional bebida alcoólica tella (espécie de cerveja) ou tej (vinho de mel). Um elemento obrigatório é o presente de desconhecidos e necessitados, que é considerado um ato especial de piedade neste dia.
Lalibela. Esta cidade, famosa por suas igrejas esculpidas em pedra (XII–XIII séculos), se torna o principal centro de peregrinação de Natal. Milhares de fiéis se dirigem aí para passar o festival em igrejas únicas, que, segundo a tradição, foram construídas como "Novo Jerusalém". A missa noturna na igreja Betlehem (Bet-Lehem) ou na igreja cruciforme de São Jorge (Bet-Giorgis) é um espetáculo inesquecível.
Aksum. Na antiga capital, onde, de acordo com a tradição etíope, é guardado o Arca da Aliança, o festival ganha uma profundidade sacerdotal especial, ligando o Natal à história antiga.
Apesar do conservadorismo da tradição, Genna sente o impacto da modernidade. Nas cidades, o festival é mercantilizado (adornos de loja, música secular). No entanto, o núcleo — jejum, missa noturna, ceia familiar e jogos comunitários — permanece inabalável para a maioria dos etíopes. O festival também se torna um importante marcador da identidade das diásporas: as comunidades etíopes em todo o mundo tentam reproduzir seus elementos principais (missa, ceia conjunta), adaptando-se às novas condições.
O Natal etíope (Genna) é um complexo cultural e religioso vivo, onde a antiga arcaica (calendário, jejum, simbolismo do fogo) se combina organicamente com o desenvolvimento teológico litúrgico. É um festival que envolve todo o homem e toda a comunidade: o corpo (através do jejum e do longo tempo em pé na igreja), o espírito (através da oração), as ligações sociais (através da ceia comunitária e do jogo). Ele demonstra a capacidade surpreendente da tradição cristã de inculturar, absorvendo e santificando costumes locais (fogueiras, jogo) e mantendo a continuidade com a era apostólica mais antiga através da inabalável dogmática e calendário. Genna não é um exponato museológico, mas o coração pulsante do cristianismo etíope, confirmado anualmente sua unicidade e viabilidade em um mundo globalizado.
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