Introdução: A Império como Polo Civilizacional
O termo “Comunidade Bizantina das Nações” (em inglês Byzantine Commonwealth), introduzido pelo historiador britânico Dimitri Obolensky, designa não uma confederação política, mas um espaço cultural e religioso, formado sob o influência determinante do Império Bizantino. Este espaço abrangia povos da Europa Oriental e do Sudeste Europeu, que adotaram o cristianismo na forma ortodoxa oriental (bizantina) e absorveram os elementos principais da civilização bizantina. As datas cronológicas do fenômeno são do século IX ao XV, com pico de influência no século X–XII.
Coração da Conceito: Tríade de Influência
A comunidade se baseava em três pilares interligados da civilização bizantina:
Ortodoxia: A fé comum, prática litúrgica, organização eclesiástica (patriarcado de Constantinopla como centro primordial), ideais monásticos. Isso foi o principal marcador civilizacional que separava “a comunidade” do Ocidente latino e do mundo muçulmano.
Tradição cultural e literária: A disseminação do grego como língua da teologia e da alta cultura, bem como a criação de escrita em idiomas locais com base no alfabeto grego (cirílico entre os eslavos) ou adaptação do alfabeto grego (a escrita georgiana e armênia surgiram antes, mas evoluíram em contato). Tradução de textos sagrados e literatura bizantina.
Idéia e estética política: A adoção da concepção de sinfonia de poderes (colaboração entre a igreja e o estado), ideologia imperial, direito romano (na forma adaptada) e códigos arquitetônicos (igreja cruciforme-cúpula), iconografia e arte decorativa e aplicada.
Nações-chave da comunidade e mecanismos de influência
Os povos que entraram na órbita da comunidade não foram receptores passivos. Eles adaptaram criativamente os exemplos bizantinos.
Bulgários: O Primeiro Império Búlgaro (após o batismo em 864) se tornou um poderoso rival e veículo de influência bizantina. Durante o reinado de Simão (893–927), a Escola de Livros de Preslau se transformou em um dos centros da escrita eslava. A Bulgária muitas vezes serviu como puente cultural para a transmissão de modelos bizantinos a outros eslavos, especialmente à Rússia.
Sérvios e croatas: A Sérvia, que adotou o cristianismo da Bizâncio, esteve em constante diálogo-superioridade com o império, e sob Estêvão Dushan (século XIV), até tentou substituí-lo, proclamando-se “rei dos sérvios e gregos”. Os croatas, apesar de ficarem sob influência latina, mantiveram elementos do patrimônio cultural bizantino (por exemplo, na arquitetura da Dalmácia).
Rússia: O batismo da Rússia em 988, sob Vladimir o Santo, foi um ponto de virada. Kiev adotou a ierarquia eclesiástica, arte, direito (“Nikokanon”) e a ideia de eleição divina do poder (a conceção “Moscou — Terceiro Rom” se tornou uma reinterpretação posterior). Casamentos dinásticos com a casa imperial (como Ana Porfirogênita, casada com Vladimir) fortaleceram os laços.
Povos do Cáucaso (Geórgia, Armênia): Tiveram tradições cristãs antigas, mas interagiram constantemente com a Bizâncio na esfera da teologia, arte e política. Os reis georgianos (por exemplo, Davi IV o Construtor) frequentemente usaram títulos e símbolos bizantinos.
Valáquia e Moldávia: A adoção tardia do patrimônio bizantino (séculos XIV–XV) em condições de ameaça otomana. Seus governantes se consideravam defensores do ortodoxismo, e a cultura foi formada sob forte influência do arte bizantino tardio e pós-bizantino.
Mecanismos de disseminação:
Atividade missionária (Cirilo e Metódio, seus alunos).
Casamentos dinásticos das princesas bizantinas com governantes de países vizinhos.
Encomendas artísticas e arquitetônicas de mestres bizantinos no exterior.
Presença de elites estrangeiras em Constantinopla (como reféns, estudantes, mercenários).
Limites e contradições da comunidade
A conceção não previa unidade política ou ausência de conflitos.
Concorrência política: A Bulgária, Sérvia ou a Antiga Rússia travaram muitas guerras com a Bizâncio, tentando ocupar seu lugar ou contestar sua hegemonia.
Concorrência com outros centros: Especialmente com Roma (conflito por influência na Croácia, Bulgária, Rússia até 1054 e depois) e com os reinos ocidentais europeus.
Características nacionais: Cada povo criou sua cultura sintética única. Por exemplo, a pintura russa de ícones ou a arquitetura sérvia da escola de Raska desenvolveram estilos próprios, diferentes dos cânones constantinopolitanos.
Decadência com o enfraquecimento do império: Após a conquista latina de Constantinopla em 1204, o prestígio imperial caiu. Novos centros de cultura ortodoxa (Tarnovo na Bulgária, Sérvia, e então Moscou) se tornaram polos de atração independentes.
Herança e significado histórico
A Comunidade Bizantina deixou uma marca profunda:
Unidade cultural da Europa Oriental: A religião comum e os códigos culturais semelhantes facilitaram os contatos entre os povos eslavos e outros da região.
Formação das identidades nacionais: A ortodoxia e a cultura escrita se tornaram pilares do autoconhecimento dos russos, búlgaros, sérvios, romenos.
Fronteira das civilizações: A comunidade definiu a fronteira oriental da Europa latina (linha passando aproximadamente pelo Dniester e o Adriático), cuja influência é sentida até hoje no desenquadramento religioso e cultural.
Espaço pós-bizantino: Após a queda de Constantinopla em 1453, a ideia de “comunidade” se transformou na ideia de mundo ortodoxo sob a proteção da Rússia (“Moscou — Terceiro Rom” se tornou uma reinterpretação posterior), e mais tarde na conceção de solidariedade ortodoxa no Império Otomano.
Conclusão: A comunidade como diálogo de culturas
“A Comunidade Bizantina das Nações” é uma conceção bem-sucedida que permite ultrapassar os limites da história política do império e ver uma comunidade civilizacional mais ampla. Ela destaca que o influência da Bizâncio não se resumia a campanhas militares ou diplomacia, mas a um processo duradouro de difusão cultural e de empréstimo consciente. Foi um espaço de diálogo, onde a periferia frequentemente se tornava o centro do desenvolvimento criativo dos exemplos recebidos. A comunidade não sobreviveu à queda de sua metrópole em 1453, mas as matrizes culturais, religiosas e ideológicas criadas dentro dela continuaram a definir o caminho histórico da Europa Oriental ao longo dos séculos, deixando um legado vivo que é objeto de estudo e auto-identificação para muitas nações modernas.
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