A Quaresma de São Vasílio (13 de janeiro) – antecedente do Antigo Novo Ano e do Dia de São Vasílio Magno – representa um único cronotopo cultural, onde se encontram o calendário popular, a tradição ortodoxa e as práticas seculares de Natal. Este é um "festival-duplo", existente devido ao deslocamento do calendário, mas que ganhou uma profunda semântica. Sua existência moderna é um diálogo complexo entre rituais arcaicos estáveis e suas reinterpretações inovadoras, às vezes lúdicas, no ambiente urbano e digital.
A Quaresma de São Vasílio tradicional (também conhecida como "Noite das Bruxas", "Kolyada") estava repleta de rituais com função mágica-produtiva e apotropaica (protetora).
"Generosidade" e "Semeio": O ritual central, diferente do canto de Natal. As "generosidades" tinham um código agrícola-econômico pronunciado. As canções ("Generoso, generoso, generosinha...") celebravam não tanto o nascimento de Cristo, mas a futura abundância de colheitas, o rebanho e a prosperidade doméstica. O semeio ritualista de grãos ("semeio") era um símbolo direto do "semeio" da prosperidade futura. O grão (trigo, cevada, aveia) não era apenas uma iguaria, mas um veículo material de prosperidade.
Cena ritualística: "Cena rica": Diferente da cene pós-natal de jejum, era posta uma "generosa" ou "rica" cene – com manteiga, creme, manteiga de porco, nozes. A mesa estava cheia de pratos (blinis, pães, salsichas, geléia), simbolizando a abundância desejada para todo o ano. Era obrigatório um prato de porco (cabeça de porco, pernas), pois São Vasílio era considerado patrono dos porcos ("porcozinho").
Profecias e "impureza de São Vasílio": A noite era o pico da adivinhação de São Vasílio, especialmente para as mulheres. A fronteira entre os mundos era considerada ténue, o que facilitava o contato com o outro mundo. No entanto, havia também o outro lado: acreditava-se em uma atividade especial da força das trevas ("espíritos de São Vasílio"), portanto, parte dos rituais (caminhada pela casa com uma vela acesa, fumaça de incenso) tinha um caráter protetor.
Curiosidade: No Polesie e na Ucrânia existia um ritual específico de "condução do Cordeiro" ou "Cordeiro de São Vasílio". O participante, com uma capa virada e uma máscara com chifres, representava o cordeiro, que "morria" e "ressuscitava" sob as generosidades. Este ritual, que remonta aos antigos cultos da fertilidade, simbolizava diretamente a morte e a ressurreição cíclica da natureza, e também era associado à abundância (a cabra – mula-pobre).
A data de 14 de janeiro (1 de janeiro no antigo estilo) na ortodoxia é o dia da memória do bispo São Vasílio, um dos pais da Igreja. Sua liturgia é celebrada neste dia. Historicamente, na Rússia, esta data coincidia com o Ano Novo civil até as reformas de Pedro o Grande de 1700. Assim, a Quaresma de São Vasílio é um "fragmento histórico" do Antigo Ano Novo russo, o que explica sua riqueza em rituais de programação do futuro, análogos aos quais em outras culturas são, por exemplo, as resoluções de Natal.
Na sociedade urbana dos séculos XX-XXI, há uma transformação e adaptação das tradições.
Folklorização e teatralização: Os rituais de "generosidade" e "semeio" passaram para o repertório dos grupos folclóricos e estúdios etnográficos, tornaram-se parte dos festivos públicos urbanos e das "cantações de Natal" escolares. Seu significado se desloca do mágico para o estético e o lúdico. Isso já não é um ritual, mas um performativo cultural, que mantém a memória da tradição.
Cena: da abundância à consciência e ao fusion: A "cena rica" continua, mas seu composição é frequentemente modernizada (uso de quinoa, superalimentos, opções veganas). O foco se desloca da quantidade para a qualidade e a simbologia. A mesa não é "travada", mas acolhedora e decorada de maneira consciente. Surge uma "tradição de fusion" – a coexistência da cene com o ovo de russa e o champanhe, simbolizando a fusão dos dois Anos Novos.
Profecias: da mística à psicologia e ao entretenimento: A adivinhação perdeu o terror sátrico-preditivo, tornando-se uma forma de jogo psicológico de grupo e entretenimento. As adivinhações de cera, de espuma de café, com espelhos são agora vistas como uma forma de reflexão, que desencadeia um diálogo interno sobre desejos e medos. No ambiente digital, apareceram robôs e aplicativos "adivinadores", simulando práticas antigas.
"Noite de São Vasílio" como formato de festa particular: Surge uma nova tradição secular – uma reunião temática de amigos no dia 13 de janeiro. Seus atributos podem ser: dress-code em estilo popular, preparação da cene por cada convidado com seu próprio receita, execução conjunta das generosidades (com sugestões da internet), troca de presentes não materiais, mas de desejos para o ano, escritos em cartões bonitos.
Virada ecológica: O "semeio" ritualista de grãos é interpretado como um símbolo de zelo pela natureza. Alguns grupos ecológicos realizam ações de alimentação de pássaros com este grão no inverno, reinterpretando o ritual como um ato em benefício do ecossistema.
Criação de "festa adicional": Em condições de depressão pós-festiva de janeiro, oferece uma oportunidade para uma nova reunião com os entes queridos, menos onerosa em termos de expectativas.
Marca identitária: Para muitos, ele serve como meio de sentir a conexão com "raízes", com a "verdadeira", não soviética tradição, especialmente no contexto da globalização do Natal e do Ano Novo.
Prática de slow living (vida devagar): A noite com sua cene doméstica, conversas e rituais simples se opõe ao caos e ao consumo, tornando-se um refúgio de simplicidade consciente e calor humano.
A Quaresma de São Vasílio hoje é um exemplo vivo de paliptônico cultural, onde o texto antigo de agrário-mágico foi coberto por camadas de tradição eclesiástica, cultura de Natal soviética e práticas urbanas modernas. Sua força está em sua flexibilidade e capacidade de reinterpretação.
Se o ritual tradicional estava direcionado para programar a prosperidade objetiva (colheita, saúde do rebanho) através de ações coletivas, rigidamente regulamentadas, as novas inovações estão orientadas para a prosperidade subjetiva (atmosfera, emoções, reflexão) através da escolha criativa de práticas individuais ou em pequenos grupos.
As tradições (cena, generosidades, desejos) são mantidas não como um dogma obrigatório, mas como um código cultural, um conjunto de símbolos que pode ser reunido em uma construção significativa individual. Neste diálogo de tradições e inovações, a Quaresma de São Vasílio não é um vestígio arcaico, mas uma forma cultural estável, que permite ao homem moderno, no ponto de transição do calendário, viver o sentimento de comunidade, esperança e conexão com o tempo em sua medida cíclica. Ele se transformou de um ritual de sobrevivência da comunidade em um ritual personalizado de entrada significativa no novo ciclo de vida.
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