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Santa Eadfrith: rainha, fugitiva e fundadora da maior santuário da Inglaterra

Na história inglesa há nomes que soam como música de uma era passada. Eadfrith é um deles. Por trás desse nome antigo e um pouco espinhoso há uma mulher que conseguiu o impossível: ela se casou duas vezes, permaneceu virgem duas vezes, fugiu do marido-rei, fundou um mosteiro que se tornou um dos mais grandiosos catedrais da Inglaterra, e após sua morte, seu corpo não se deteriorou. Ela é venerada pelos católicos, ortodoxos e anglicanos. Seu dia de lembrança — 23 de junho — é celebrado pelo mundo cristão. Quem é essa santa cujo nome, traduzido do antigo inglês, significa «força nobre»?

Sangue real e piedade precoce

Eadfrith nasceu por volta de 636 no sítio real de Easining na Inglaterra Oriental, na área moderna do condado de Suffolk. Ela foi filha do rei Anna, governante dos anglos orientais, e parente de vários santos — Sexburga, Ethelburga, Ercenvall e Witeburh. Sua família era profundamente religiosa, e desde a infância, a menina absorveu os ideais cristãos. Ela foi batizada pelo santo Felix, chamado apóstolo da Inglaterra Oriental. Foi ele, assim como o santo Aidan e a futura abadessa Hilda, que tiveram influência decisiva sobre ela: já na juventude, Eadfrith sentiu um atração irresistível pela vida monástica, pela pureza e pelo serviço a Deus.

O primeiro casamento — por cálculo, mas em concordância

No entanto, o destino teve outros planos. Em 652, quando Eadfrith tinha cerca de dezesseis anos, seu pai a casou com Tumbert, um nobre distinto da chamada «Terra Baixa» — uma área na fronteira dos condados modernos de Cambridgeshire e Lincolnshire. Esse casamento foi um acordo político destinado a fortalecer a posição do reino. Mas, como diz a tradição, Tumbert era tão devoto quanto sua jovem esposa. Eles concordaram viver em completo castigo, mantendo a virgindade, como se não fossem casados. Este estranho acordo durou três ou cinco anos, até Tumbert morrer. Eadfrith ficou viúva — e, o que é mais importante, livre dos laços matrimoniais.

A ilha de Ely como dote

Como dote, Tumbert lhe presentou terras na ilha de Ely — naquela época, isso era uma verdadeira ilha, cercada por pântanos e águas, difícil de acessar e, portanto, perfeita para uma vida de solidão. Eadfrith se retirou para lá após a morte do marido. Ela desfrutava da tranquilidade, da oração e da liberdade. Mas a paz foi breve.

O segundo casamento — com um rei que mudou de ideia

Alguns anos depois, em 660, os interesses estatais interferiram novamente na vida de Eadfrith. Ela foi casada com Ecgfrith, filho do rei Oswiu da Northumbria. Ecgfrith tinha apenas quinze anos — ele era mais novo que ela. O jovem rei concordou com as condições da noiva: o casamento continuaria virginal, como na vez anterior. Eadfrith tornou-se rainha da Northumbria e, como escrevem os cronistas, ela se relacionava com seu marido jovem mais como um filho ou um irmão mais novo, e não como uma esposa. Ela o ensinou o catecismo, educou-o no espírito cristão. Como rainha, ela generosamente doou terras para a construção de igrejas — por exemplo, transferiu um terreno para a fundação do famoso mosteiro de Hexham.

Esse casamento durou doze anos. Mas Ecgfrith cresceu, tornou-se mais robusto e, eventualmente, decidiu que queria relações conjugais normais. Ele exigiu que Eadfrith cumprisse o dever conjugal. Ela se recusou. O rei ficou furioso, ofereceu subornos, ameaçou, mas a rainha manteve sua posição. Ela não queria violar o voto dado a Deus ainda na juventude.

Fuga através da inundação do rio

O conselheiro e ajudante de Eadfrith nessa oposição foi o santo Wilfrid, bispo da Northumbria. Ele apoiou sua decisão e ajudou a fugir. A lenda diz que, quando Eadfrith deixou o palácio, Ecgfrith partiu em perseguição. Ele quase a alcançou, mas um inundação repentina do rio Humber bloqueou seu caminho. O rei teve que voltar, e a fugitiva chegou a ilha de Ely — seu patrimônio hereditário, que o primeiro marido lhe presenteou.

Fundação do mosteiro em Ely

Em 672, Eadfrith recebeu o hábito monástico no mosteiro de Colindale sob a orientação de sua tia Ebb. Mas no ano seguinte, 673, ela retornou à ilha de Ely e fundou lá um mosteiro duplo — para monges e para freiras. Esse foi um passo ousado: mosteiros duplos eram raros até mesmo naquela época. Eadfrith se tornou a primeira abadessa. Ela governou a comunidade com sabedoria, piedade e firmeza, merecendo fama não apenas como santa, mas também como um administrador e mentor espiritual出色.

Profecia da morte e a inexplicável imortalidade

Eadfrith viveu no mosteiro por apenas seis anos. Segundo a tradição, ela possuía o dom da profecia e previu antecipadamente o dia de sua morte. Ela sabia que morreria em 23 de junho de 679. Naquele dia, uma epidemia estourou entre suas freiras, e muitas ficaram doentes. Ela mesma sofria gravemente de uma tumoração no pescoço — uma das versões diz que era câncer, que era considerado um castigo por seu antigo amor por joias. Mas ela suportou a dor com uma incrível resignação.

Ela morreu em 23 de junho de 679 e foi enterrada em um caixão de madeira, conforme pediu, sem quaisquer honras. No entanto, dezesseis anos depois, sua irmã Sexburga, que a substituiu no cargo de abadessa, decidiu transferir seus restos para uma gárgula de pedra mais digna dentro da igreja. Quando o caixão foi aberto, todos os presentes ficaram chocados: o corpo de Eadfrith ficou imortal. Ele não se deteriorou, e a tumoração no pescoço desapareceu, como se nunca tivesse existido. Os médicos e os monges que testemunharam esse milagre reconheceram unânimemente que era um sinal divino.

Veneração, destruição e renascimento

A notícia dos ossos imortais se espalhou por toda a Inglaterra, e Ely se tornou um centro de peregrinação. Doentes, especialmente aqueles que sofriam de doenças da garganta e do pescoço, se dirigiam para a gárgula da santa. Acreditava-se que o toque em suas relíquias trazia cura. Eadfrith se tornou uma das santas mais veneradas da Inglaterra antiga. Seu nome foi modificado: de Æthelthryth, ele se transformou em Etheldreda, depois em Audrey, e, de Audrey, o nome inglês tawdry — «miudeza, joias baratas» — surgiu. Isso porque em feiras no dia da santa Audrey, vendiam joias baratas, e com o tempo, esse nome se associou a joias sem gosto.

O mosteiro de Ely floresceu por quase novecentos anos. No século XI, começou a construção do grandioso catedral no local da modesta igreja, que ainda existe hoje. No entanto, em 1539, durante a Reforma de Henrique VIII, o mosteiro foi fechado e a relíquia da santa Eadfrith destruída. Sua relíquia, aparentemente, foi perdida. No entanto, no século XIX, o interesse pela santa renasceu. Muitas igrejas dedicadas a ela foram restauradas. Hoje, ela é venerada nas tradições católica, ortodoxa e anglicana. Em Londres, na Ely Place, ainda há uma igreja dedicada a Santa Eadfrith — uma das mais antigas igrejas católicas da capital.

Dois dias de memória

Santa Eadfrith tem dois dias de memória. O primeiro é 23 de junho, o dia de sua morte. O segundo é 17 de outubro, o dia da transferência de suas relíquias para a gárgula de pedra. No catedral de Ely ainda podem ser vistos relevos esculpidos de cenas da sua vida, e no local da gárgula destruída, foi instalada uma placa memorial moderna. Cada ano, nestes dias, em Ely, são realizadas cerimônias solenes, e centenas de peregrinos vêm honrar a memória da mulher que preferiu a fidelidade a seu voto à coroa real.

O que resta de Eadfrith

Eadfrith não é apenas uma santa das antigas crônicas. Ela é um símbolo da força feminina, da fidelidade a suas palavras e da capacidade de defender sua escolha mesmo diante do poder de um monarca poderoso. Seu testemunho não é de sangue e martírio, mas de um milagre de outro tipo — o milagre do recado. Recado de casamento conveniente, de poder, de riqueza — por aquilo que pareceu a ela o verdadeiro. Ela não foi uma mártir no sentido tradicional, mas foi estável. E foi essa estabilidade, multiplicada pela resignação, que a tornou uma das maiores santas da Inglaterra.

Quando hoje pronunciamos o nome de Eadfrith, lembramos não apenas da rainha ou da abadessa. Lembramos da mulher que ousou dizer «não» ao rei e «sim» à sua consciência. E talvez isso seja o principal ensinamento que ela nos deixou através de treze séculos.


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