Diferente de muitos moralistas cristãos que se opunham ao riso com suspeita, C.S. Lewis (1898–1963) considerava o humor e o riso como elementos essenciais da natureza humana, dados pelo Criador, e como uma poderosa ferramenta de reflexão teológica. Seus pontos de vista, espalhados por ensaios, cartas e obras literárias, formam um sistema coeso, conectando crítica literária, ética e apologética cristã. Para Lewis, o humor não era apenas um dispositivo retórico, mas um testemunho da Radiação Transcendental (Joy), conceito central em sua pensamento.
Seguindo a tradição de G.K. Chesterton, Lewis rejeitava a ideia de Deus como uma entidade sombria e impassível. Em seu trabalho "O Milagre", ele afirma diretamente que "a alegria é um negócio sério no universo". Para ele, o riso verdadeiro e não grosserio é uma resposta espontânea à oportunidade inesperada, que é um microcosmo da harmonia divina. Dessa forma, a capacidade de rir une o homem a Deus. Em "Cartas de Balamute", o demônio-encarregado, com irritação, observa que "Deus colocou em humanos uma terrível inclinação ao riso". O humor é impenetrável para o diabo, pois é quase impossível simulá-lo e subordiná-lo à má vontade – ele brilha espontaneamente, como uma faísca.
Lewis fazia uma distinção entre "alegria" (Joy) como uma tônus espiritual pela transcendência e "divertimento" (Fun) como uma reação simples e terrestre. O verdadeiro humor é capaz de ser uma ponte entre eles, um brilhante de diversão que lembra da Alegria Suprema.
Lewis construiu uma hierarquia ética e estética clara dos tipos de humor, que pode ser reconstruída a partir de suas obras.
Nível mais alto: "Ridículo Alegre" (Joyous Fun).
Este humor é baseado em surpresa, jogo, inocência e sensação de abundância de existência. Para Lewis, a personificação disso é "Rei Lear" de Shakespeare, onde o mordomo fala a verdade através de paradoxo e absurdo, ou contos onde o ridículo está inseparável do milagroso. Em suas próprias obras, Lewis alcança isso nas cenas da mesa dos castores em "O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa", onde o riso se torna parte do calor, da comunidade e da antecipação da libertação.
Nível médio: Satira e Derisão (Satire and Derision).
Este humor é necessário, mas perigoso. Em o ensaio "Três maneiras de escrever para crianças", Lewis escreve que uma boa história para crianças deve agradar também aos adultos, e uma das chaves para isso é a ironia, criando um plano secundário. Sua própria sátira em "Cartas de Balamute" ou na trilogia espacial (especialmente em "A Potência Mais Repulsiva") denuncia os vícios da modernidade – desde a vaidade intelectual até o tecnocratismo insensível. No entanto, Lewis advertia sobre o perigo deste humor: ele pode facilmente degenerar em cinismo e arrogância, envenenando a alma do mordomo. A derisão é justificada apenas quando direcionada ao que realmente merece ser condenado.
Nível mais baixo, perverso: Grosserio (Flippancy).
Este é o principal inimigo de Lewis na esfera do humor. Grosserio (em seu termo – "flippant") não é uma simples brincadeira, mas uma doença espiritual, a hábito de ridicularizar tudo. O demônio Balamute instrui seu aprendiz: "Grosserio é a melhor proteção [de Deus]… Ele, sem produzir absolutamente veneno mortal, manterá-o em um estado de leve náusea em relação a todos os assuntos importantes". O grosserio homem riu das coisas santas não por crítica, mas pela preguiça da mente e pelo medo da seriedade. Este é o humor que corta o caminho para a transcendência.
Contra Henri Bergson: O filósofo francês via o riso antes de tudo como um "mecanismo correção social", punindo a mecanicidade e a inflexibilidade. Lewis concordaria com a função social da sátira, mas para ele, o núcleo do verdadeiro riso não está na correção, mas na surpresa alegre, que é mais próxima do entusiasmo infantil do que do julgamento público.
Contra Sigmund Freud: Para Freud, o humor é uma sublimação, um escoamento de agressão proibida ou energia sexual ("sarcasmo e seu relacionamento com o inconsciente"). Lewis rejeitaria esse reducionismo. Em seu sistema, o riso sobre anedotas impróprias é exatamente a forma mais baixa, grossa, enquanto as formas mais elevadas de humor não "liberam" o baixo, mas aproximam ao elevado. O riso para Lewis não é uma máscara de medo ou desejo, mas uma realidade espiritual autônoma.
Lewis valorizava o humor como um instrumento contra o idolatria e o egocentrismo. Ele acreditava que a capacidade de se rir de si mesmo é um sinal de saúde espiritual. Em "O Cristianismo Simples", ele notou que o diabo é uma entidade terrivelmente séria, sem sentido do humor, enquanto os santos estão cheios de alegria. O humor humilha, alivia a tensão, permite ver o problema sob outra luz. No romance "Enquanto não encontramos rostos" (recontando a mitologia de Eros e Psique), a princesa Psique alcança o amor imortal não através de feitos heróicos, mas através de humildade e aceitação – e esse caminho é iluminado pelo humor suave e sábio da velha babá.
Facto interessante: Em sua vida, Lewis foi mestre da auto-ironia. Em suas cartas para a fã americana Joy Davidman (sua futura esposa), ele respondeu com facilidade e humor suas perguntas teológicas complexas, usando o humor como meio de equalizar a distância e criar uma atmosfera de conversa confiante.
Para K.S. Lewis, o riso verdadeiro não era simplesmente uma reação psicológica, mas um fenômeno teológico. Ele servia como prova de que o homem foi criado para algo maior do que este mundo: a alegria espontânea de uma piada inesperada, o sentimento de "adequação do inesperado" – isso, para Lewis, é eco da perfeita Alegria que espera o homem além da existência terrestre. Sua hierarquia do humor (do alegre ao satírico ao grosserio) é, na verdade, uma escala de saúde espiritual da pessoa e da sociedade. Neste sistema, o inimigo mais perigoso não é aquele que não ri, mas aquele que ri de tudo, pois esse riso não eleva, mas destrói a capacidade da alma de responder ao sagrado. Assim, o análise de Lewis sobre o humor se torna um sintese único de dom literário, perspicácia filosófica e antropologia cristã, onde o riso ganha o status de argumento sério a favor da existência de Deus como fonte da mais alta, interminável Alegria.
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