Relações entre a cultura russa e inglesa são um romance longo e complexo. Nele houve paixão ardente, influência profunda e períodos de resfriamento. Motivos ingleses penetraram na literatura russa, poesia e filosofia tão profundamente que às vezes são difíceis de separar dos próprios. No entanto, nunca foram apenas uma cópia simples. A mente russa tomava ideias inglesas, as derreter em seu caldeirão e produzindo algo novo, reconhecível e ao mesmo tempo original. De Pushkin a Berdiaev, a Inglaterra não foi apenas um ponto geográfico, mas um importante interlocutor no diálogo cultural russo.
No início do século XIX, a poesia russa estava literalmente encantada com o romantismo inglês. Lord Byron se tornou o ídolo da geração. Sua "personalidade rebelde", seu desencanto, sua "tristeza mundial" encontraram eco nas almas dos poetas russos. Pushkin, na juventude, escreveu poemas "bairônicos" ("Pensionado do Cáucaso", "Fonte de Bakhchisarai"), mas rapidamente ultrapassou a imitação direta, criando "Eugênio Onegin" — um romance em versos onde o bairônicismo já foi superado. Lermontov foi mais direto, seu "Diabo" e "Mtsyri" são respostas russas ao desafio bairônico. Motivos ingleses em Lermontov não são apenas forma, mas também tema: solidão, rebelião, desobediência. Shakespeare na Rússia se tornou quase "próprio". Seu tradução foi feita e reinterpretação. Pasternak, Marshak, Lozinski — suas traduções de Shakespeare fizeram dele parte da linguagem poética russa. Brodsky — o motivo inglês na poesia russa do século XX é particularmente notável. Emigração, reflexões sobre o "caráter norte", comparação de São Petersburgo com Londres — tudo isso o liga à tradição inglesa. Brodsky até escreveu poemas em inglês, embora considerasse o russo seu idioma principal.
Dickens talvez tenha sido o mais amado prosador inglês na Rússia. Sua sentimentalidade, sua atenção à sorte do "pequeno homem", sua crença na bondade e justiça estavam próximas da tradição literária russa. Dostoevsky chamava Dickens de seu mestre. Em "Os Desesperados e Oprimidos", há um tom dickeyano. Mesmo os personagens de Dostoevsky falam de Dickens como uma fonte de educação moral. Thackeray, com sua ironia e ceticismo, também encontrou seus leitores, embora não se tornasse ídolo da multidão. "Feira da Vanidade" é um realismo inglês que foi interpretado de maneira própria na Rússia. No século XX, o impacto da prosa inglesa não se enfraqueceu. Londres de James Joyce, Virginia Woolf, Graham Greene — tudo isso entrou na literatura russa através de traduções e cultura dos emigrantes. Os motivos ingleses são particularmente fortes na prosa de Nabokov (embora ele escrevesse em inglês). "Lolita" e "Fogo Pálido" são prosa em inglês, mas escrita com a consciência russa.
A filosofia russa não poderia passar ao lado do empirismo inglês. Locke, Hume, Bentham — suas ideias sobre conhecimento, ética e direito eram bem conhecidas na Rússia. No entanto, a reação foi ambígua. De um lado, Herzen e Chernyshevsky interessavam-se pelo utilitarismo e até tentaram aplicá-lo à vida russa. Do outro lado, os slavófilos, Khomyakov, Kireevsky viam no racionalismo inglês uma ameaça à espiritualidade russa. Eles discutiam: A Inglaterra é um país de "cálculo desapaixonado", enquanto a Rússia é um país de "alma". Esse conflito se manifestou particularmente no século XIX. No século XX, Berdiaev frequentemente se referia a pensadores ingleses, embora os criticasse por "positivismo". Para ele, a Inglaterra era um símbolo de liberdade, mas também de "burguês". No entanto, a filosofia inglesa se tornou para os pensadores russos não tanto uma fonte de respostas, mas um estímulo para próprios questionamentos.
Para Blok, a Inglaterra é o "Albion nebuloso", um país de mistérios e mitos. Para Mandelstam, o "paisagem inglês" se torna metáfora de um mundo estranho, mas atraente. Na poesia do século de prata, a Inglaterra frequentemente se apresenta como um símbolo de estabilidade, tradição, mas também como um mundo estranho para a "largura russa". Essa ambiguidade foi adotada pelos poetas emigrantes. Para eles, a Inglaterra era ao mesmo tempo um refúgio e um lembrete da pátria perdida.
O soneto shakespeariano se tornou uma forma popular na poesia russa dos séculos XIX e XX. Pushkin, Lermontov, Fet, Brusov escreveram sonetos seguindo o cânone inglês. Mas a poesia russa reinterpretou essa forma, tornando-a mais livre e despojada. Também é importante o impacto da tradição baladista inglesa. Zhukovsky traduziu poemas de Walter Scott e Southey, adaptando-os ao gosto russo. Isso influenciou o desenvolvimento da poesia romântica russa.
Motivos ingleses na cultura russa nunca foram um simples empréstimo. Sempre passaram pelo filtro da língua russa, da alma russa, da história russa. A cultura russa tomava o inglês e o transformava em algo diverso, que já não era reconhecível como "estranho". Portanto, falar de "influência" é errado. Foi um diálogo. Às vezes agudo, às vezes irônico, mas sempre profundo. E se lemos Shakespeare na tradução de Pasternak, ouvimos Pasternak. Se estudamos Bentham, vemos a ética russa. Esse diálogo continua até hoje e, provavelmente, continuará enquanto tivermos a capacidade de ver no outro não um inimigo, mas um interlocutor.
New publications: |
Popular with readers: |
News from other countries: |
![]() |
Editorial Contacts |
About · News · For Advertisers |
Digital Library of Peru ® All rights reserved.
2023-2026, LIBRARY.PE is a part of Libmonster, international library network (open map) Preserving Peru's heritage |
US-Great Britain
Sweden
Serbia
Russia
Belarus
Ukraine
Kazakhstan
Moldova
Tajikistan
Estonia
Russia-2
Belarus-2